POSTAGENS AVULSAS: TETRALOGIA DO BAR

 
imagem garimpada na internet

ARTISTA: BARÃO VERMELHO
DISCO: BARÃO VERMELHO (1982)

 
 
Escutando, analisado e aprofundando sobre o primeiro disco do Barão Vermelho para minha série de postagem Dois Deleites Despercebidos em Discos, encontrei uma temática interessante e relevante para a década de oitenta quando uma geração de jovens começava a explorar a vida noturna em um Brasil em que se percebia os sinais de uma aurora libertadora dos anos de repressão.
 
Trata-se de bar. Local onde a juventude se reunia para conversar, lanchar e ouvir música naqueles tempos sem streaming, apenas Chacrinha promovendo as bandas do pop rock, que viria a ser o BRock. Bares eram, e continuam sendo um refúgio para o bom pop rock. E este ambiente musical e cultural foi lugar para o surgimento e aprimoramento de diversos artistas.
 
O bar é citado em quatro músicas do trabalho pioneiro da banda que trazia Cazuza, o menino poeta, nos vocais e nas composições. Parece que o bar foi para Cazuza o que a taverna foi Álvares de Azevedo.
Estas pérolas, Down em Mim, Billy Negão, Ponto Franco e Por Aí, não passaram despercebidas e registram o início da saga e epopeia musical de Agenor de Miranda Araújo Neto.
 
 

DONW EM MIM

        Outra vez vou te cantar, vou te gritar
        Te rebocar do bar
 
Down em mim, inspirada em Down on me e de Janis Joplin, segue próxima da musicalidade da grande musa do rock, blues e soul dos anos 60. Mas a expressão Eu ando tão down repetida ao longo da música como um mantra, significa “para baixo”. A letra revela um eu-lírico angustiado, desiludido com a vida, que mesmo rebocando, ou seja, levando para casa alguém que já “capotou” por causa da bebedeira, e vendo que a história será a mesma “E as paredes do meu quarto vão assistir comigo/À versão nova de uma velha história”. A manhã do seguinte não lhe trará esperança“E quando o sol vier socar minha cara/ Com certeza você já foi embora”.
 
O bar faz consonância com as demais músicas do disco, em que duas delas serão mencionadas na série de postagens na introdução, que sintetizam como ser “super” em um mundo superficial. É no bar que as pessoas buscam fugas da superficialidade de suas vidas.
 


BILLY NEGÃO

            Eu conheci um cara num bar lá do Leblon
            Foi se apresentando: "Eu sou Billy Negão
            A turma da Baixada fala que eu sou durão
            Eu só marco touca é com o coração
 
A música é a jornada de um anti-herói da Baixada fluminense, mas que está no Leblon, contando a história das consequências de um furto que ele fez para um implante de pivô, procedimento odontológico em voga nos anos 80. Mas ele “marcou toca” e acabou sendo delatado pela sua garota.
 
E enquanto contava a história, aparece um camburão, a Veraneio Vascaína” do Aborto Elétrico e difundida pelo Capital Inicial, e Billy Negão dançou, foi baleado, enjaulado, autuado, enquadrado e condenado. A sequência de ações sucessora da ação da polícia dá um ar de legalidade.
 
Billy Negão ainda poderá ser um personagem de quadrinhos. Quem sabe?
 
 

PONTO FRACO

            Benzinho, eu ando pirado
            Rodando de bar em bar
            Jogando conversa fora
            Só pra te ver
 
Aqui o eu-poético esconde sua fragilidade em um ambiente social. Jogando conversa fora de bar em bar somente para ver a sua paixão passando, sinuosa, sedutora. É o tentar mostrar sua casca forte em busca do seu ponto fraco. Afinal, como diz a letra da música, sobre ponto franco, todo mundo tem o seu.
 
Ela, o objeto de desejo também traz a mesma ambiguidade. A mulher também vai de mesa em mesa, fazendo cara de fácil e jogando duro.
 
Esta canção está em sintonia com o espírito do rock brasileiro dos anos 80, que apesar do raiar da liberdade, a conquista amorosa, sincera, ainda era, e continua sendo, um drama.
 

POR AÍ

            Se você me encontrar
            Num bar, desatinado
            Falando alto coisas cruéis
            É que eu tô querendo um cantinho só ali
 
Esta música é o autorretrato de mais um eu-lírico deslocado na vida, e não se encontrando no amor. Alguém que transita pelo ambiente doméstico, estando em casa, mas com a cabeça em outro lugar. E isto pode ser melhor que amar.
 
No bar ele desabafa, falando coisas cruéis e tentando descolar alguém para não dormir na solidão, e não necessariamente para viver um romance. Alguém que certamente vai embora antes do sol socar a cara do eu-lírico, e este siga tão down.
 
Esta música para alguns críticos é a cara do Cazuza e sua vida, louca vida, vida breve, sendo título de um álbum póstumo com música que sobraram.
 
***
 
Down em Mim e Ponto Franco estão também no disco que eu mais gosto, Barão Ao Vivo de 1989, já sem Cazuza.

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