SÉRIE LITERÁRIA: P.E.N.T.E
CONTO: BIFURCAÇÕES
AUTOR: VITOR DE LERBO
PUBLICAÇÃO: REVISTA MYSTÉRIO RETRÔ, Nº 21
QUEBRADO PELA ANGÚSTIA, GUINCHADO PELA VINGANÇA
Com este conto, abro uma subsérie
de resenhas compostas por três contos de cada edição da Revista Mystério Retrô,
editada por Tito Prates, em seu sexto ano, dentro da série P.E.N.T.E. em que
analiso personagem, enredo, narrativa, tempo e espaço e espaço.
Esta não é a primeira resenha que
faço de obras publicadas na revista acima citada. Há quatro anos postei um
texto de outra série que envolve contos: Cinco contos, cinco pontos. Mas
entendo que aqui nesta série fica mais convergente com a proposta da revista,
uma vez que defini que na série Cinco contos, cinco pontos analisarei cinco
contos de um autor.
O conto de Vitor de Lerbo é o
segundo na edição 21 da Revista publicado em agosto de 2025. Conheço o nome Vitor
de Lerbo de antologias da editora Andross. Agora tive o prazer de desfrutar de
um conto deste autor que através de uma cronologia reversa vai nos levando,
como que puxados por um guincho, na angústia de Tadeu.
P. DE PERSONAGEM
“De angústia bastava sua vida
conjugal”
Tadeu Aparecido dos Santos, conhecido
como Tadeu do Guincho, um trabalhador, como o próprio apelido indica, na função
de guinchar veículos por motivos diversos. Vivia um momento difícil após a
recente separação da mulher. Por ter saído de um casamento de trinta e sete
anos julga-se que ele tenha entre cinquenta e sete a setenta de cinco anos.
Na noite da sua prisão, não se
reconhecia por ter “traído” Marlene, com Helen, que lhe tratou carinhosamente em
sua casa. Sua cabeça estava cheia de pensamentos negativos.
Sua simplicidade de homem
trabalhador, aliada à bebedeira, nem prestou atenção nos detalhes que indicavam
estar sendo envolvido em uma armadilha preparada pelo sargento Marcelo Rocha
(ou Tenente Madureira) e Ademar, o marido de Hellen, como o policial sem
uniforme, o não recebimento da guia de prestação de serviço e a saída forçada
do escritório.
É um homem receoso, seja quando
foi chamado para guinchar o Marea que teria sido usado em assaltos segundo o
sargento “Marcelo Rocha” e quando chegou para guinchar o Marea em uma
estradinha margeada por plantações de Trigo (que não associou ser o mesmo). Um homem
de fé, atestado por chorar diante da cruz no tribunal, pedindo perdão.
Outro personagem, visto aqui como
antagonista, é Adhemar. O marido traído, que arquitetou a vingança junto com
seu irmão policial. Com menos complexidade dramática, por ser antagonista, age
friamente. Estava ali na rua anotando a placa do guincho? Estava com ódio, não cumprimenta
Tadeu. Parece estar sentido no fórum, ele retirado dali por seu irmão. Seu jeito
carrancudo constata com o de ele revelado pela tatuagem de Kombi, que significa
liberdade, aventura e uma conexão profunda com viagens e o estilo de vida
nômade.
Hellen, Marlene e o tenente
Madureira são apenas componentes
Cimentando o drama de vigança bem
escrito pelo autor.
E. DE ENREDO
"Não entendeu ao certo o que estava acontecendo, mas sabia que precisava ir embora o quanto antes."
O título revela bem o conteúdo dramático
do conto nos fazendo acompanhar como escolhas equivocadas foi levando nosso protagonista
para o fundo de uma trama pegajosa como inseto em uma planta carnívora.
Foi numa bifurcação da estrada
que Tadeu dos Guinchos resolveu atender o chamado em altas horas e já
embriagado. E acabou sendo julgado por um crime que não cometeu.
O conto vai traçando a amargura
de um homem abandonado pela esposa, pela perda de um filho, se envolve em um
momento sexual com uma desconhecida, se arrependendo depois.
O conto também contém detalhes
como a tatuagem da Kombi no cóccix de Hellen, na tesoura de cabo roxo e na
questão familiar entre o sargento Madureira e Adhemar.
N. DE NARRATIVA
“Vomitou cervejas, o
cachorro-quente do jantar, a raiva, a culpa, a saudade”
Narrativa em terceira pessoa,
começa com o julgamento de um crime, que coloca o leitor na expectativa de que
crime se trata, e com a resiliência do réu Tadeu, dono da Sempre Guinchos.
Doravante a narrativa segue uma
linha retroativa: despois o julgamento e a condenação,
- Corta para a prisão em
flagrante ao lado de um carro que ele foi socorrer em um lugar ermo pela
madrugada,
- Corta para Tadeu dirigindo a
noite como um ato libertador e decide fazer uma boa ação,
- Corta para Tadeu sendo chamado
por um policial enigmático e com forte poder de persuasão,
- Corta para o chamado de Hellen
pela manhã para ver um carro que não queria pegar.
Ou seja, a narrativa vai
esclarecendo o motivo que levou Adhemar e seu irmão sargento Madureira a
incriminar Tadeu pela morte de Hellen.
T. DE TEMPO
“Havia algo libertador em dirigir
pelas estradas na madrugada, com todos os vidros abertos e em silêncio.”
Vamos inverter aqui e começar
pela ordem cronológica correta dos fatos assim como fizeram no filme Era uma na
América. Espero que o autor do conto não se zangue tanto canto Sergio Leoni.
Os fatos, excluindo o julgamento,
levou um dia. Começa com Tadeu recebendo uma mensagem da esposa falando em
divórcio, terminando um casamento de trinta e sete anos.
Embriagado às 10h00 da manhã vai atender
um carro sem bateria na casa de Hellen.
Então o chamado do sargento
Marcelo Rocha ocorre então pela tarde.
Depois pela madrugada, já no dia
seguinte, ele está dirigindo para se libertar de toda angustia quando decide
socorrer um carro em um local próximo dali.
Entre sua prisão e seu julgamento
deve ter se passado um ano já que tudo foi protocolar.
E. DE ESPAÇO
“Se Marlene não tivesse sido tão
enfática, ele já estaria a caminho de São José do Rio Preto...”
Estradinha com plantações de
trigo, possivelmente na mesma região de São José do Rio Preto onde Marlene,
ex-esposa de Tadeu, residia. E trigais sempre associado a regiões frias, têm se
expandido no noroeste de São Paulo recentemente.
O espaço desta narrativa de crime
é interiorano. A casa de Hellen tem portão baixo, jardim e paredes brancas. Os.
O guincho era um caminhãozinho, Marea, Corsa Sedan vermelho.
“Os pormenores constarão na
sentença por escrito. Tenham uma boa tarde”
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